Pombal fica sem delegado de saúde pública em plena crise pandémica

Por: PombalTV
06-11-2020


Foi com "grande mágoa" que José Ruivo diz ter apresentado a demissão do cargo de delegado de saúde pública de Pombal, entidade responsável pela implementação de todas as medidas de saúde pública determinadas pela Direção Geral de Saúde (DGS), que vinha exercendo desde 2007.

"Não foi de ânimo leve que o fiz. Foi uma decisão muito difícil de tomar", afirmou, em declarações à Pombal TV, admitindo que vai sentir falta da "adrenalina" que a actividade lhe proporcionava. "Sinto uma nostalgia muito grande. Vou sentir falta disto, da adrenalina, porque sou uma pessoa muito interactiva", disse-nos.

Segundo contou à Pombal TV, o pedido de exoneração do cargo foi apresentado à Administração Regional de Saúde do Centro (ARSC) em Setembro, depois de, no final de Agosto, ter, alegadamente, sofrido uma desautorização por parte da coordenação da Unidade de Saúde Pública (USP) do Pinhal Litoral, liderada por Odete Antunes, que terá anulado um parecer negativo que José Ruivo deu para a realização de um torneio de xadrez em Pombal.

"Senti-me desautorizado", refere. Desautorização essa, que considera ter sido "injusta" e, até, "ilegal", daí ter decidido sair no final deste mês, encontrando-se, até lá, a gozar as férias a que tem direito por lei. 

"Esse foi o factor desencadeante, que me fez dar o murro na mesa, porque depois desse episódio, nem eu conseguiria mais ter a minha independência psicológica para poder desempenhar as minhas funções como toda a gente esperava que eu desempenhasse", explicou, rematando: "Já cá ando há muitos anos e chegamos a uma altura em que já não toleramos muitas coisas!"

Embora essa desautorização tenha sido a "gota de água", como o próprio refere, José Ruivo invoca outras razões para a decisão de deixar o cargo.

"No fundo, foi um acumular de situações! Um cansaço e um desgaste relativamente a algumas situações que se passaram e que me magoaram e me estavam a perturbar. E também a incompreensão do esforço da equipa. Não tem só a ver comigo, mas com toda a equipa que me acompanhava e que fazia um trabalho extraordinário, mas que não era devidamente reconhecido, nem valorizado pela coordenação da Unidade de Saúde Pública", lamentou-se, especificando: "O trabalho desta equipa fala por si. Uma equipa que sempre se dedicou ao serviço da população de Pombal, desempenhando um trabalho árduo, sem sábados, domingos, feriados e nem férias! E nunca houve uma recompensa, seja uma palavra de estímulo, ou uma recompensa financeira, que também é importante, quando havia profissionais de saúde da USP noutros concelhos a receber horas extraordinárias! Há dois meses que eu não tinha uma palavra da minha coordenadora! Havia uma atitude de animosidade para connosco!"

Apesar de desejar o melhor para Pombal e que este conjunto de circunstâncias não agrave, ainda mais, a situação, já por si, díficil que estamos a viver, numa altura em que a pandemia de covid-19 se encontra no seu auge, com muitas vidas humanas a ser ceifadas diariamente,  José Ruivo teme pelo "desmoronamento" da equipa que liderava. Da qual também fazia parte a Dra. Gracinda, a seu ver um "elemento fundamental", que, conforme nos disse, "preferiu ir trabalhar para fora deste ACES", preparando-se para assumir funções de delegada de saúde em Alvaiázere (ACES Pinhal Interior Norte).

"Eu sou a pessoa mais facilmente substituível, mas temo muito pela minha equipa. Era uma equipa coesa, motivada, em que todos falávamos a mesma linguagem e penso que com provas dadas. A meu ver, o concelho de Pombal era uma referência no panorama do distrito, nos serviços de saúde. Os serviços estavam muito bem organizados e, quando havia um caso de Covid, ninguém descansava, ninguém ia para casa, enquanto não resolvesse o problema de forma a evitar a propagação. Eu e os meus colegas usávamos inclusivamente os telefones pessoais para agilizar os contactos e resolver as situações com maior brevidade. Partilhávamos sempre as informações de todos os doentes, mantendo sempre uma relação de proximidade com eles. E nunca houve uma palavra de estímulo, de ânimo ou de ajuda, por parte da coordenação da USP! Nunca... nunca... nunca!", reiterou.

Tudo isto acontece numa altura em que, em plena crise pandémica, a saúde pública da região se encontra a funcionar com metade dos médicos. Segundo uma notícia veiculada recentemente pelo Jornal de Leiria, dos 10 médicos que existem ao serviço do Pinhal Litoral (que inclui Pombal, Batalha, Leiria, Marinha Grande e Porto de Mós), quatro estão de baixa e um está de férias, a caminho da exoneração do cargo.

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